quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Que se foda

Ao ler as excelsas palavras deste estimado bloguista, foi assaltada por uma dúvida que me acompanha desde há alguns anos a esta parte. Não é uma dúvida constante, que me atormente a diário. Aparece de vez em quando, deixa a sua inquietação, e vai-se embora para voltar daí a uns meses. Há homens assim. Eu, sorte a minha, só tenho uma dúvida, que nos homens aprecio a constância.
Ora bem, qual a maneira correcta de escrever essa tão doce palavra que ilustra a nossa língua: fodasse ou foda-se? Fodasse é mais bonito, é certo, dá uma continuidade, e uma permanência à coisa. Mas foda-se, embora muito mais feio, parece-me ser, efectivamentente a forma correcta de a grafar. No fundo, foder é um verbo, certo? E ao exclamá-lo o que realmente queremos é que a pessoa, situação, objecto, sentimento, atitude em questão na realidade...se foda. Digo eu, que disto não percebo nada. A ser assim, temos que escrever foda-se. Uma situação hipotética, no entanto, já seria diferente estilo: «(suspirante) Ai se eu fodesse o..»
Vou continuar a escrever foda-se. Mas a dúvida, nao sei porquê, persiste. Acho, porém, que o meu pensamento está certo e que tem toda a lógica gramatical possível.
Bem, que se foda tudo isto que eu vou almoçar!

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Alternativas

Olhou-a e disse:

- És a minha vida alternativa.

- Como?, ofendeu-se ela, cheia de si, querendo o primeiro plano.

- Escolhi não viver-te. És o que poderia ter sido, mas não foi. E hoje estamos aqui. Uma história vazia de nós.

- Não. Eu escolhi não viver-te a ti. Eu escolhi não ter o drama, a dor, o tédio.

- A escolha foi nossa. Não vamos voltar ao mesmo erro. Vamos deixar de competir, de exigir vitórias e derrotas. Aceitemos um empate.

- Não temos que aceitar nada. Tu próprio o disseste. Eu não sou para ti. O nós não existe, tal como não existe qualquer hipóteses de pluralização. Existiu ontem, não existe hoje. Não existirá jamais.

- Não te dói?

- Dói, mas teria doído mais ter ficado contigo. Estar a insistir num nós inexistente.

- Porquê inexistente? Se tivesses feito essa opção seria real. Existiria.

- Não. Se não existe é porque nunca existiu. Porque nunca poderia existir. Não tinha lugar no mundo, na existência. O real não é uma escolha, é uma imposição.

- Porque dizes isso?

- Nunca escolhi ser uma história alternativa. Isso foi-me imposto. O real não foi uma escolha minha. Também não foi tua.

- Não foi minha?

- Não, não acredito que tivesses escolhido fazer de mim o plano B.

- Sim. Tu sempre foste o plano A.

- Pois. Só que o plano A não deu certo.

- É a vida.

- É o que dizem.

E cada um seguiu o seu caminho, pensando em qual seria o plano Z. As hipóteses estavam-se a gastar com o passar dos anos. As saudades pertenciam ao que não foi. A uma vida não vivida. A vida estava no fim, perceberam. E estava por viver. Com essa certeza, e esse lamento, continuaram a andar em direcções opostas. A busca pelo impossível era a sua realidade.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Nacionalizações

Volto de férias para me deparar com uma noticia que, no minimo, classifico de 'engraçada'.

O governo Bushista norte-americano, esse que se diz tão a favor do mercado livre, onde os agentes devem ser todos privados e o Estado se deve abster de intervir, esse mesmo governo acabou de adquirir a Freddie Mac e a Fannie Mae.

Será um sinal da ruína e da queda desse sistema chamado Capitalismo, que quase todos classificam de 'eterno'?

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Férias


Este blogue encerrou - definitivamente - para férias.


Voltamos em Setembro.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008




Soyez réalistes,

demandez

l'impossible !





quinta-feira, 17 de julho de 2008

Capacidades

Não se aprende tudo na escola. Nem se aprende tudo durante a infância e adolescência. Há coisas que se aprendem naquela fase da vida que ainda não tem nome. Naquela fase em que já não somos adolescentes, mas que também ainda não somos adultos, porque ser adulto não é apenas o número de anos que se viveu, mas toda uma disposição e atitude mental perante a vida que se podia descrever ao longo de trinta linhas mas que eu vou apenas classificar de aborrecida. Pronto, vá…Chata. Retomando. Hoje dei conta de uma aprendizagem que fiz nos últimos tempos. Nos últimos anos, na verdade. É ela desligar os ouvidos do cérebro. Passo a explicar. Sempre fui daquelas pessoas que necessitava de um silêncio absoluto para qualquer actividade que exigisse concentração mental. Escrever, ler, estudar, pensar. Enfiava-me em bibliotecas e comecei a viver de noite, as horas do silêncio. Quando já todos roncavam, a minha produção intelectual – fosse ela qual fosse, que agora não me lembro especificamente de nada mas de certeza que produzi intelectualmente qualquer coisa ao longo de 25 anos de existência – desenvolvia-se. Entretanto, vim trabalhar para um open space, moda moderna das instituições de trabalho, em que as pessoas são postas todas juntas a confraternizarem umas com as outras num espaço exíguo, qual galinhas. Foram meses difíceis, os primeiros. Não conseguia escrever três linhas sem esbarrar num suspiro, numa conversa telefónica, numa tosse crónica, num choro meio escondido. Desesperava e gritava que iria conseguir produzir dez vezes mais se tivesse um gabinete só para mim, de preferência à prova de som. Bom, gritava em casa, que uma estagiária desafiar logo o poder patronal não é o melhor caminho para a contratação – aliás, qual será? Alguém sabe? Alguém me explica? Mas entretanto, como não me deram o tal gabinete – bolas, nem um caixote de lixo eu tenho só para mim – até porque não podiam adivinhar que eu queria um, fui-me adaptando. É extraordinário, o Homem. Adapta-se a tudo, esse grande ser. E hoje, dois anos e meio volvidos, já quase não oiço o que se passa à minha volta. Com um poder de abstracção desenvolvido ao longo das horas aqui passadas, poder esse que quase me poderia dar direito à entrada para a série Heroes (digo eu, que já merecia, pois bem sei o que me custou) os meus ouvidos desligam-se absolutamente do cérebro. Já consigo escrever um texto inteiro de 9 mil caracteres e, pasme-se, até revê-lo, em apenas um dia. Qual Hércules, tenho hoje uma força imensa no que respeita a desligar os nervos que transmitem informação, e mantê-los desligados. Nem sempre é bom, claro. Não oiço quando me chamam para cigarros na esplanada, não oiço as piadas, não oiço as discussões – que adoro cuscar. Mas também não oiço a música de qualidade duvidosa, da qual a Lambada é o melhor exemplo, do open space adjacente, nem as conversas telefónicas constantes, nem os choros, os murros na mesa e a irritação que são permanentes no meu.
Aprendi uma coisa muito útil: a meter-me só na minha vida e nos meus pensamentos. São muitos mais interessantes que os dos outros. Será que sou adulta?

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Enamoramento

Há frases românticas:

"Só te falta pôr ovos. Se pusesses ovos, éramos independentes do mundo."

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Dolce fare niente

Entre casamentos, festivais e dolce fare niente, deixei de escrever. O casamento passou. A noiva estava linda, o noivo estava feliz, o vice-versa também se aplica, ambos estavam apaixonados e espera-se que a união, a felicidade e a beleza durem para sempre e que eu seja regularmente convidada para jantares caseiros tranquilos e prazenteiros. O festival acabou, deixou algumas recordações (a Roisin deu um grande concerto, o Neil também), outras tantas desilusões – Bob, oh Bob – e algum cansaço, mas já se sabe que para o ano há mais e que eu lá estarei. O dolce fare niente ainda dura por isso continuo sem escrever. Isto foi apenas para não dizerem que não faço posts.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Diálogos


- Achas que sou extremamente fútil?

- Bem...É esse o lado que mostras mais de ti. O lado da personalidade que mais vincas. Acho que é uma maneira de te protegeres.

- De me proteger?

- Sim.

- Mas achas que lá porque me gosto de divertir, comprar roupas giras, ir à praia, não posso  ter mais conteúdo?

- Sim. Poder podes. Mas às vezes não se nota. 

- Porquê?

- Todos temos tendência para avaliarmos e definirmos as pessoas por uma única característica, aquela que mais salta à vista. Depois, durante anos, agarramos-nos a essa ideia.

- Então o problema não é meu. É de quem avalia. É terrível ser uma mulher bonita e feliz. Ninguém acredita que possamos ser, também, inteligentes. Talvez seja uma ideia demasiado assustadora e intimidante.



terça-feira, 24 de junho de 2008

Sex and the City

Ali estávamos. Uma noite há muito planeada. Com a vestimenta indicada. Cabelo, maquilhagem, vestido, casaco. Sapatos. Na bilheteira do Londres a escolha era óbvia. Sexo e a Cidade. Que mais? Foram duas horas de risos, sorrisos e algumas lagrimas confessadas. Sem rasgos cinematográficos, sem um único plano retido na memória. E no entanto. No entanto todas elas voltaram, por duas breves horas às nossas vida. E foi bom. Foi bom porque nos lembraram que somos mulheres e que podemos tudo. Que conquistámos, ou temos vindo a conquistar, direitos iguais, e o devido lugar no mundo. Mas que, para tal, não precisamos perder aquilo que nos caracteriza, e que nos diferencia, enquanto mulheres. Não são - apenas - as roupas, a maquilhagem, os sapatos perfeitos. Não é - somente - a busca do amor, e um sentido romântico inabalável. A liberdade de se fazer o que se quer, quando se quer, como se quer ou a enorme força que permite ultrapassar tudo, e atingir tudo. É mais do que isso. É a capacidade feminina de amar. De amar não só os homens, os filhos, a família, mas de amar outras mulheres. De amar as nossas amigas.
A amizade feminina é diferente. Choramos umas pelas outras, sentimos tudo. Protegemos-nos, ajudamos-nos, nunca nos esquecemos. Mesmo estando longe, estamos sempre perto. E as amigas assumem nas nossas vidas um papel que mais ninguém pode assumir. É com elas que tudo partilhamos. Os segredos mais íntimos, as felicidades, as dores, os medos, as tristezas, as humilhações. As maiores alegrias e os momentos mais importantes da vida. Estão sempre lá, as amigas, e o seu amor é incondicional. Aceitam-nos exactamente como somos, porque são, talvez, as únicas que chegam, alguma vez, a conhecer a nossa verdadeira essência.
Ainda bem que vivemos este momento juntas. Ainda bem que saímos da sala e fizemos tudo aquilo. Que, acima de tudo, nos rimos, como nos rimos sempre. Porque juntas, a capacidade de rir é sempre inesgotável. E é por isso que vocês estarão sempre comigo.
Esse é o segredo que nenhum homem algum dia irá perceber sobre o Sexo e a Cidade. Que esta é, acima de tudo, uma história de amizade. Que a alma gémea não é - apenas - o Big. A alma gémea não é. São. São elas as almas gémeas umas das outras. E essa é a capacidade - tão diferente - de amar feminina.

* Isso e, finalmente, ter-se percebido que a mulher é um ser tão, ou mais, sexual que o homem. E que tem direito a sê-lo. E que se orgulha de o ser. E que gosta - tanto ou mais - de falar sobre isso. Com todos os detalhes. Abertamente. E com muitos, muitos risos.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Avante!

"Temos de ir ao âmago da questão: não pode haver uma esquerda sem haver uma direita. E não se pode ter um centro sem ambas."

Harlan Coben.

Tretas. O mundo seria muitissimo melhor, as pessoas mais felizes, se gritássemos, e cantássemos, todos a uma voz e uníssono: Avante, Camaradas!

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Actualização da fome

São 11 e 45 da noite. Continuo no jornal, continuo em frente ao computador. Continuo com fome. Estou profundamente infeliz.

Fome

São dez da noite. Acordei às dez da manhã. Há doze horas, portanto. Bebi um copo de sumo de fruta (entre banana, pêssego, laranja e maça, perdi a conta do que estava ali dentro), comi uma taça de Especial K, e bebi um café com leite. Almocei filetes de um peixe qualquer estranho, com um arroz duro, ao que consta de ervilhas (o meu refeitório é pior do que o das universidades públicas). Lanchei um iogurte e um café na esperança de ir para casa cedo, jantar com a minha família. Ainda estou no jornal. São dez da noite. Acho que ainda me esperam umas boas meias horas por aqui. Isto não fecha e eu tenho fome. Muita fome. O bar está fechado e não há nada a fazer senão esperar e ouvir o meu estômago a soluçar – ou será mais apropriado roncar? – por comida.

É por estas e por outras que eu não percebo as mulheres que infligem este sofrimento a si próprias apenas para emagrecerem alguns gramas. Vá...kilos. Prometo perante todos vós não me submeter a um processo de fome com vista a esse fim. E tenciono cumprir. JURO.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

"Acredito em Deus. Talvez não no Deus católico ou mesmo cristão, porque tenho dificuldade em ver qualquer Deus como elitista. Também tenho dificuldade em acreditar que algo que criou florestas tropicais e oceanos e um universo infinito, tivesse sido capaz de, durante o mesmo processo, criar algo tão tranatura como uma humanidade à sua própria imagem. Acredito em Deus, mas não como um ele ou uma ela, mas como algo que desafia a minha capacidade de conceptualizar dentro das insignificantes molduras de referência que tenho à mão."

Dennis Lehane, Um Copo Depois da Guerra

terça-feira, 3 de junho de 2008

Pedido

Podias-me levar a dar a volta ao mundo. Apanhavas-me aqui e seguíamos. De avião, de comboio, de carro, de autocarro, até de eléctrico. Não me interessa. Íamos apenas. E seguíamos sempre, em frente, sem olhar para trás, que é assim a vida e também devem ser assim as viagens. Quaisquer viagens.

Estou à tua espera. Já fiz a mochila. Está carregada de livros. Tu levas o iPod. Não precisamos de mais nada.