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quinta-feira, 26 de junho de 2008

Diálogos


- Achas que sou extremamente fútil?

- Bem...É esse o lado que mostras mais de ti. O lado da personalidade que mais vincas. Acho que é uma maneira de te protegeres.

- De me proteger?

- Sim.

- Mas achas que lá porque me gosto de divertir, comprar roupas giras, ir à praia, não posso  ter mais conteúdo?

- Sim. Poder podes. Mas às vezes não se nota. 

- Porquê?

- Todos temos tendência para avaliarmos e definirmos as pessoas por uma única característica, aquela que mais salta à vista. Depois, durante anos, agarramos-nos a essa ideia.

- Então o problema não é meu. É de quem avalia. É terrível ser uma mulher bonita e feliz. Ninguém acredita que possamos ser, também, inteligentes. Talvez seja uma ideia demasiado assustadora e intimidante.



terça-feira, 11 de março de 2008

As Frases dos Outros: Animal; feminismo; alimentação; vida rural; ser caseira


«Como vai ele alimentar esse pequeno animal a comer?»

Por «esse pequeno animal a comer» entenda-se a minha excelsa pessoa, esta pobre que vos escreve, R.

Por «ele» entenda-se aquele que pelos vistos teria a 'obrigação' de me sustentar, ou seja, alimentar. Quem sabe sabe, quem conhece conhece, quem está a leste, não seja cusco.

Contexto: ordenado para um casal de caseiros.



Ora bem, faça-se a desconstrução semântica....



1- Não sou, de todo, um pequeno - ou grande - animal a comer. Para já, não sou um animal, no sentido de 'besta' do termo. Depois, não sou nenhuma 'jarvarda' a comer. E, a finalizar, também não sou bruta a fazê-lo, ou seja, não como assim tanto. Aliás, como já dizia o amigo Marco Paulo sou, obviamente, uma lady na mesa. Acontece, isso sim, que sou uma autêntica mulher do séc. XXI. Já para não falar de que as dietas e a anorexia há uns anos que saíram de moda, a verdade é que nunca as fiz, nem delas fui adepta ou apoiante, nem mesmo nos loucos e idos anos 90. Não sou uma menina do chá, nem da seiva. Também não conto calorias. Tão-pouco faço a dieta das privações, ou seja «esta semana não como hidratos, para desabituar o corpo da insulina; para a semana não como proteínas; sumos de fruta nem pensar porque engordam e não, essa lista de 100 restaurantes não tem nenhum para mim. talvez como uma folha de alface em casa e vá lá ter...» Não. Realmente essa não sou eu, que prefiro uma bela mariscada, ou feijoada, ou mão-de-vaca com grão, para todos os efeitos. Alinho nas jantaradas e almoçaradas, gosto de bolas e gosto particularmente de chocolates. O álcool não engorda assim tanto e o vinho é bom para o coração. Gostos desses pequenos prazeres da vida, e continuarei a gostar. E sinto-me feminina à mesma e NÃO. Não peso 100 quilos.



2- Ele. A questão do ele também me parece engraçado. Ora bem, se a proposta era trabalho para um casal de caseiros, diga-se de passagem que metade do casal seria constituída por mim. Logo metade do rendimento mensal seria, por direito, meu. Posto isso, eu própria me sustentaria, obrigada, rest my case, não preciso que ninguém me sustente (exceptuando algumas excepções e, claro, aceito perfeitamente que me ofereçam jantares, viagens, presentes de toda a espécie...)



3- Esta frase foi proferida, durante um jantar, no próprio do Dia Internacional da Mulher. Acho que não foi propriamente em nossa homenagem. Se um homem come com gosto é por isso mesmo, por ser saudável e 'comer com gosto', ser dotado de um grande apetite. Um macho no verdadeiro sentido do termo portanto. Uma mulher transforma-se logo num pequeno animal. E , além disso, tem que ser alimentada.



4- Não se deixem enganar. Este paleio feminista de hoje é apenas para desviar o assunto. Estou apenas, e na verdade, farta desta fama de comilona. Quero ser vista como uma pessoa normal no que concerne à minha alimentação, that's all.



5- Casal de caseiros. Bem, a vida rural parece-me bastante engraçada. Consta que há porcos à discrição, que por sua vez dão origem a uma belas febras.



6- A que horas é preciso por as vacas a pastar? E ir recolhê-las? Estarão oito horas de permeio? É que são as horas de que preciso de sono...



7- Considerando o facto de as caseiras não terem que fazer qualquer trabalho domestico, seja de que espécie for, e de que não podem ser chamadas nem para emergências de esquentadores, isso significa que eu teria que fazer concretamente o quê?



8- É que considerando as premissas, parece-me que iria ter tempo suficiente para ler uma boa média de cinco livros por semana. O que significa que conseguiria nuns meses de trabalho, bater os russos, os americanos, ingleses e franceses.



9- A vaga ainda está por preencher?



10- Há abelhas, moscas e melgas o ano inteiro?



11- Estou a gostar da imagem que tenho no cérebro neste momento da vida rural. Posso proibir meninas citadinas mimadas de gritarem algo ofensivo como «Chamem a caseira!!!!»? E, caso o façam, posso ignorar os seus gritos?



12- Há TVCABO e Funtastic Life nos montes alentejanos? Posso ter um vale Blanco Badajoz incluído no ordenado?



Bom, face a todas estas interrogações fiquei com fome. Vou atacar o frigorífico e alimentar-me. Que sugerem para a ceia? Pizza, bolo de chocolate, cação de coentrada?

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

As conversas de café: Cinema e Control.

Falava-se de filmes no outro dia. Dos bons, dos maus, dos assim-assim. Dos que fazem-chorar-mas-que-não-prestam-para-nada, dos filmes-de-domingo-à-tarde-mas-que-nem-são-maus, dos bons-para-comer-pipocas, dos que se-não-for-no-King-então-não-vale-a-pena, dos sou-demasiado-snob-para-admitir-que-vi. Enfim, toda uma série de categorias.

Impressionantemente, na mesa em que a conversa se desenfumou, só dois não tinham visto o Control. Impressionantemente porque 2/4 dos fumantes não eram nascidos quando o Ian Curtis morreu e 1/4 ainda andava de fraldas. Ou seja, apenas 1/4 tinha acompanhado a coisa de perto e se tinha realmente emocionado / enlutado / entristecido / fechado no armário (o da idade) em 1980 quando o Ian se suicidou.

E impressionantemente - é a última vez que uso a palavra hoje, prometo - não nos encontrámos todos à esquina a tocar a concertina e a beber uma cafezada no King. Mas fomos. E ali à mesa, dois dias depois, discutíamos o visto. Cada um com a sua perspectiva, claro. A um incomodava-lhe a falta de aproveitamento do formato 16 por 9. Eu nem sei o que isso é. Aliás, mesmo depois da explicação, continuo sem conseguir identificar o mesmo. Bom, que os planos eram muito certinhos. Falta de arrojo na realização. Que a cena do Hate - não sabem, vão ver, que uma ida ao cinema não faz mal a ninguém - era uma tentativa de rasgo artístico, mas sem nenhuma sequência. Outros que não, que a cena do blusão - se continuam à nora levantem o rabo e vão comprar o bilhete - fazia todo o sentido. Enfim, filme disseminado até à exaustão. Resultados obtidos por mim, que fumei dois cigarros enquanto tentava absorver todas estas tecnicalidades:

1- Divirto-me imenso quando vou ao cinema. Vejo o filme e entro nele. Esqueço-me da sala e vivo aquelas horas como que dentro da tela. Bom para mim, que curto. Pior para mim, porque nunca vou conseguir escrever decentemente sobre os filmes vistos. Há sempre o reverso da moeda.

2- O filme peca pelo excesso de protagonismo dado ao triângulo amoroso. Todos concordámos no mesmo. Mas apenas nós, mulheres, conseguimos ver a estereotipização presente na coisa.
Estereótipo 1- A mulher-esposa, coitada, que se dedica à família, ao lar, e é uma vitima deslavada. Mal pronta, mal maquilhada, mal vestida, desleixada.
Estereótipo 2- A outra. Não, melhor: a Outra. Uma jornalista - coitada, é que não estava habilitada a trabalhar nem para o Tal & Qual - cheia de Sex Appeal, mas que vem dar cabo de tudo. Boazinha que dói. Destrói um lar, mas é uma santa. Claro, não interessa. É linda de morrer. Densidade das personagens? ZERO. Mas o que é que importa? São mulheres. Ou se tem a oficial - a esposa - que geralmente é uma seca; ou se tem a outra, que geralmente é o máximo

3- Contas à parte, ficamos confundidos. Matou-se o Ian Curtis porque não conseguia escolher entre a mulher e a amante? Então não foi por causa da sua crise existencialista que excedia - presumo eu- estas trivialidades da vida familiar?


4- Adiante...Gostei do filme. Os concertos são óptimos. O Ian Curtis parece ressuscitado. Acima de tudo, emocionei-me no fim. Emocionei-me, não. Maldispostei-me. E quando sabemos o fim, e o punch nos atinge o estômago como se não houvesse amanhã, então é porque o filme é bom. Pelo menos para mim que é assim que vejo os filmes.

A senti-los e a emocionar-me com eles.

Fui para casa a sentir-me mal. Tinha uma bola do peso do mundo na barriga. Só melhorei no dia seguinte. Grande filme.