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terça-feira, 11 de março de 2008

As Frases dos Outros: Animal; feminismo; alimentação; vida rural; ser caseira


«Como vai ele alimentar esse pequeno animal a comer?»

Por «esse pequeno animal a comer» entenda-se a minha excelsa pessoa, esta pobre que vos escreve, R.

Por «ele» entenda-se aquele que pelos vistos teria a 'obrigação' de me sustentar, ou seja, alimentar. Quem sabe sabe, quem conhece conhece, quem está a leste, não seja cusco.

Contexto: ordenado para um casal de caseiros.



Ora bem, faça-se a desconstrução semântica....



1- Não sou, de todo, um pequeno - ou grande - animal a comer. Para já, não sou um animal, no sentido de 'besta' do termo. Depois, não sou nenhuma 'jarvarda' a comer. E, a finalizar, também não sou bruta a fazê-lo, ou seja, não como assim tanto. Aliás, como já dizia o amigo Marco Paulo sou, obviamente, uma lady na mesa. Acontece, isso sim, que sou uma autêntica mulher do séc. XXI. Já para não falar de que as dietas e a anorexia há uns anos que saíram de moda, a verdade é que nunca as fiz, nem delas fui adepta ou apoiante, nem mesmo nos loucos e idos anos 90. Não sou uma menina do chá, nem da seiva. Também não conto calorias. Tão-pouco faço a dieta das privações, ou seja «esta semana não como hidratos, para desabituar o corpo da insulina; para a semana não como proteínas; sumos de fruta nem pensar porque engordam e não, essa lista de 100 restaurantes não tem nenhum para mim. talvez como uma folha de alface em casa e vá lá ter...» Não. Realmente essa não sou eu, que prefiro uma bela mariscada, ou feijoada, ou mão-de-vaca com grão, para todos os efeitos. Alinho nas jantaradas e almoçaradas, gosto de bolas e gosto particularmente de chocolates. O álcool não engorda assim tanto e o vinho é bom para o coração. Gostos desses pequenos prazeres da vida, e continuarei a gostar. E sinto-me feminina à mesma e NÃO. Não peso 100 quilos.



2- Ele. A questão do ele também me parece engraçado. Ora bem, se a proposta era trabalho para um casal de caseiros, diga-se de passagem que metade do casal seria constituída por mim. Logo metade do rendimento mensal seria, por direito, meu. Posto isso, eu própria me sustentaria, obrigada, rest my case, não preciso que ninguém me sustente (exceptuando algumas excepções e, claro, aceito perfeitamente que me ofereçam jantares, viagens, presentes de toda a espécie...)



3- Esta frase foi proferida, durante um jantar, no próprio do Dia Internacional da Mulher. Acho que não foi propriamente em nossa homenagem. Se um homem come com gosto é por isso mesmo, por ser saudável e 'comer com gosto', ser dotado de um grande apetite. Um macho no verdadeiro sentido do termo portanto. Uma mulher transforma-se logo num pequeno animal. E , além disso, tem que ser alimentada.



4- Não se deixem enganar. Este paleio feminista de hoje é apenas para desviar o assunto. Estou apenas, e na verdade, farta desta fama de comilona. Quero ser vista como uma pessoa normal no que concerne à minha alimentação, that's all.



5- Casal de caseiros. Bem, a vida rural parece-me bastante engraçada. Consta que há porcos à discrição, que por sua vez dão origem a uma belas febras.



6- A que horas é preciso por as vacas a pastar? E ir recolhê-las? Estarão oito horas de permeio? É que são as horas de que preciso de sono...



7- Considerando o facto de as caseiras não terem que fazer qualquer trabalho domestico, seja de que espécie for, e de que não podem ser chamadas nem para emergências de esquentadores, isso significa que eu teria que fazer concretamente o quê?



8- É que considerando as premissas, parece-me que iria ter tempo suficiente para ler uma boa média de cinco livros por semana. O que significa que conseguiria nuns meses de trabalho, bater os russos, os americanos, ingleses e franceses.



9- A vaga ainda está por preencher?



10- Há abelhas, moscas e melgas o ano inteiro?



11- Estou a gostar da imagem que tenho no cérebro neste momento da vida rural. Posso proibir meninas citadinas mimadas de gritarem algo ofensivo como «Chamem a caseira!!!!»? E, caso o façam, posso ignorar os seus gritos?



12- Há TVCABO e Funtastic Life nos montes alentejanos? Posso ter um vale Blanco Badajoz incluído no ordenado?



Bom, face a todas estas interrogações fiquei com fome. Vou atacar o frigorífico e alimentar-me. Que sugerem para a ceia? Pizza, bolo de chocolate, cação de coentrada?

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

As frases dos outros - Lugares apropriados



Ler em tom de espanto, incredulidade, advertência, zanga, em grito algo histérico:

«R. o que é que estás a fazer? A pôr a cinza no cinzeiro???»

É verdade. Onde pôr a cinza então? Aviso: não num cinzeiro. Onde dançar? Não numa discoteca. Onde cantar? Nunca no banho. Fazer amor? Em todo os sítios menos na cama.

Acho que me queria dizer apenas para ser original.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

As frases dos outros: tudo cabe


«Cabe, cabe. Quando um homem quer tudo cabe. É preciso é vontade.»


Ora bem, esta frase foi dita por uma amiga a um empregado de restaurante. O contexto? Perfeitamente inócuo. Caberia uma cadeira na nossa mesa, num espaço extremamente apertado entre a mesma, a parede e a mesa ao lado? Aparentemente sim, o senhor tinha boa vontade. E quis que a cadeira coubesse. Logo, coube. Mas terá sido o comentário assim tão inocente? A mesma frase, pode ter várias interpretações. Tudo depende do contexto. Mas não apenas do contexto. Também do tom. E, meus caros dois ou três leitores, digo-vos já que o tom não foi inocente. O tom foi extremamente jocoso, na verdade - sejamos subtis, daqui cada um entenderá aquilo que lhe aprouver. O homem ficou envergonhado. Fugiu da nossa mesa para nunca mais voltar.

Nós, três mulheres juntas, claro que rimos até à exaustão. Não só pelo choque que comentário tão inocente, relativo a uma cadeira, provocou num senhor de idade provecta, mas por saber que esse mesmo choque adveio dos nossos «ares». Na verdade, temos ar de santas (se não concordar, prezado bloguista, é favor dirigir-se ao livro de reclamações abaixo, em comments), todas as três. Mas a que de nós proferiu a dita frase - que de tão inofensiva até enjoa - é aquela que um ar mais virginal possui. Penso que este foi o principal motivo do ar de medo que o senhor - seria Vietnamita? - espelhou na sua cara.

Resumindo: o empregado mudou. Em seguida calhou-nos um mais jovem. Também ele sofre um ou outro comentário um tanto ou quanto mais perverso, associado a alguns sons algo guturais provenientes das nossas lindas bocas. Também ele nos queria abandonar passado pouco tempo. O difícil foi pagar a conta.

Mas a noite foi agradável. E, após séria ponderação, concordámos nesse facto: com força de vontade, se um homem quer, tudo cabe. Que é como quem diz: «O Homem sonha, a obra cresce.» Ou era nasce?


segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

As frases dos outros - Chefe de família...mas pouco

«Quando penso nele, em casar com ele, vejo isso. Tem valores semelhantes os meus. É o meu ideal de marido. Tenho a certeza que vai ser bom pai, bom chefe de família.
-Chefe de família? - interferi eu, exaltada - Fico doente quando oiço uma frase dessas. Estamos num século XXI. Queres ser mandada? Queres ter um homem que mande em ti? - perguntei.
- Já te disse e volto a dizer - insistiu. - Acho que todas as famílias devem ter um chefe. E que esse é o papel do homem. Mas a mulher acaba sempre por mandar. São as que têm medo as que ficam irritadas com essa conversa.»

Não vale a pena fazer grandes comentários, pois não? Mais uma pérola, desta vez no feminino. E, mais uma vez, vinda de uma pessoa, neste caso uma mulher, que respeito. E que, acredito firmemente, nunca será mandada. Nem chefiada. Porquê, então, a necessidade de ter um «chefe de família»? Não deveríamos querer igualdade? Não deverão, marido e mulher, pai e mãe, ter um papel igualitário no seio da relação/família?

Estamos no século XXI. E ainda há mulheres, na casa dos vinte, com cursos superiores e futuro profissional assegurado, que querem ter um «chefe de família.» Só a frase provoca-me arrepios na espinha associados a uma náusea forte. É esta formação de conceitos, de clichés, que tem que ser ultrapassada. E urgentemente.

Que queimar desta feita, então? Estou sem propostas. Na verdade, estou assoberbada, quase sem palavras. Prestes a converter-me ao mudismo. Uma frase extremamente machista, proferida por uma mulher, e que ainda tem em si a questão das chefias e das hierarquias. Na família. Chefia na familia? É um conceito que me ultrapassa.

Bom, talvez queimar qualquer coisa que esteja ao fogão. Porque, pelos vistos, voltámos para a cozinha. Se é que de alguma vez de lá saímos. Back to the perfect housewife theme. Mas desta feita, à obrigação de ser a mulher perfeita, ter a casa perfeita, com os filhos perfeitos, junte-se a necessidade de uma carreira. Ou caberá, ainda, ao homem, o papel de sustentar a família? Será que, como chefe, ainda tem esse dever? Tendo ou não, pelos vistos, ainda é necessário, pelo menos, para orientar a esposa, e tomar as decisões finais. Porque ele é que sabe o que é melhor. E porquê? Porque é homem.
Longo percurso que as mulheres ainda têm que percorrer para atingir a igualdade. A começar nelas próprias. Só consigo dizer, mais uma vez: assim estamos no século XXI.

domingo, 25 de novembro de 2007

As frases dos outros: fio dental


«Uma mulher quando usa fio dental é sempre referida como gaja. Nunca se ouve na mesma frase: 'Aquela rapariga está brutal com o fio dental'; 'Aquela mulher fica óptima com aquele fio dental'; 'Aquela miúda é uma brasa com aquele fio dental'.
Conclusão: é sempre: 'Aquela gaja fica altamente boazona com aquele fio dental'.»




Não é que eu goste particularmente, mas lanço a proposta: que tal unirmo-nos, mulheres, e usarmos apenas fio dental por uma semana? Mesmo já tendo passado de moda. Só para marcar uma posição. Estou solidária com todas as que o usam, e defendo o seu direito a usá-los. Sem serem tratadas como gajas.


Podemos criar, junto ao Natal para acentuar a heresia, a Semana de Solidariedade com Quem Usa Fio Dental.


Estou farta de preconceitos. E esta frase foi-me dita por um homem que respeito, e que diz ter uma visão igualitária de género.


Lá está. Assim estamos no séc. XXI.


Será que ainda vamos ter que queimar as cuecas? Não terão bastado os sutiens?