quarta-feira, 21 de novembro de 2007

As conversas de café: Cinema e Control.

Falava-se de filmes no outro dia. Dos bons, dos maus, dos assim-assim. Dos que fazem-chorar-mas-que-não-prestam-para-nada, dos filmes-de-domingo-à-tarde-mas-que-nem-são-maus, dos bons-para-comer-pipocas, dos que se-não-for-no-King-então-não-vale-a-pena, dos sou-demasiado-snob-para-admitir-que-vi. Enfim, toda uma série de categorias.

Impressionantemente, na mesa em que a conversa se desenfumou, só dois não tinham visto o Control. Impressionantemente porque 2/4 dos fumantes não eram nascidos quando o Ian Curtis morreu e 1/4 ainda andava de fraldas. Ou seja, apenas 1/4 tinha acompanhado a coisa de perto e se tinha realmente emocionado / enlutado / entristecido / fechado no armário (o da idade) em 1980 quando o Ian se suicidou.

E impressionantemente - é a última vez que uso a palavra hoje, prometo - não nos encontrámos todos à esquina a tocar a concertina e a beber uma cafezada no King. Mas fomos. E ali à mesa, dois dias depois, discutíamos o visto. Cada um com a sua perspectiva, claro. A um incomodava-lhe a falta de aproveitamento do formato 16 por 9. Eu nem sei o que isso é. Aliás, mesmo depois da explicação, continuo sem conseguir identificar o mesmo. Bom, que os planos eram muito certinhos. Falta de arrojo na realização. Que a cena do Hate - não sabem, vão ver, que uma ida ao cinema não faz mal a ninguém - era uma tentativa de rasgo artístico, mas sem nenhuma sequência. Outros que não, que a cena do blusão - se continuam à nora levantem o rabo e vão comprar o bilhete - fazia todo o sentido. Enfim, filme disseminado até à exaustão. Resultados obtidos por mim, que fumei dois cigarros enquanto tentava absorver todas estas tecnicalidades:

1- Divirto-me imenso quando vou ao cinema. Vejo o filme e entro nele. Esqueço-me da sala e vivo aquelas horas como que dentro da tela. Bom para mim, que curto. Pior para mim, porque nunca vou conseguir escrever decentemente sobre os filmes vistos. Há sempre o reverso da moeda.

2- O filme peca pelo excesso de protagonismo dado ao triângulo amoroso. Todos concordámos no mesmo. Mas apenas nós, mulheres, conseguimos ver a estereotipização presente na coisa.
Estereótipo 1- A mulher-esposa, coitada, que se dedica à família, ao lar, e é uma vitima deslavada. Mal pronta, mal maquilhada, mal vestida, desleixada.
Estereótipo 2- A outra. Não, melhor: a Outra. Uma jornalista - coitada, é que não estava habilitada a trabalhar nem para o Tal & Qual - cheia de Sex Appeal, mas que vem dar cabo de tudo. Boazinha que dói. Destrói um lar, mas é uma santa. Claro, não interessa. É linda de morrer. Densidade das personagens? ZERO. Mas o que é que importa? São mulheres. Ou se tem a oficial - a esposa - que geralmente é uma seca; ou se tem a outra, que geralmente é o máximo

3- Contas à parte, ficamos confundidos. Matou-se o Ian Curtis porque não conseguia escolher entre a mulher e a amante? Então não foi por causa da sua crise existencialista que excedia - presumo eu- estas trivialidades da vida familiar?


4- Adiante...Gostei do filme. Os concertos são óptimos. O Ian Curtis parece ressuscitado. Acima de tudo, emocionei-me no fim. Emocionei-me, não. Maldispostei-me. E quando sabemos o fim, e o punch nos atinge o estômago como se não houvesse amanhã, então é porque o filme é bom. Pelo menos para mim que é assim que vejo os filmes.

A senti-los e a emocionar-me com eles.

Fui para casa a sentir-me mal. Tinha uma bola do peso do mundo na barriga. Só melhorei no dia seguinte. Grande filme.

Um comentário:

Rafael Stuart disse...

Dearest R.

Control isto, control aquilo. Mas de facto a mim nao me DESCONTROLOU.

O filme é bom porque tem pinta, porra, tem uma pinta do caraças, a fotografia, o formato 16 por 9 fantastico que eu amo por nas fotos!! o preto e branco etc etc

o filme peca no triangulo tens toda a razão, aquilo Às tantas é um quadrado, pq o espectador tb já lá tá a fazer pressão pro gajo se decidir. e isso cansa o espectador.

gostei da cena do HATE
amei a musica, ele canta melhor q o ian
amei os ataques dele, aquele dançar doido
adorei aquela cena em que a annik se debruça de cima da cama pro beijar, foto perfeita

tudo o resto me foi indiferente, mas supondo que a ideia era ter uma certa empatia pelo rapaz, isso conseguiram.

Mas bom, bom era um biopic do Springsteen! Porra, isso é que era!

ps-abaixo as cadeiras do king