quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Da dor

Olhou pela janela. Sentia-se cansado. Velho. A chuva. As dores. O peso do corpo. A solidão. Custava-lhe cada vez mais aquele olhar, sempre rotineiro. Aqueles olhos, que olhavam o mundo. Sempre de fora. O mundo lá fora. E ele de fora do mundo. Dentro daquelas quatro paredes. Asfixiantes.
Sempre o mesmo acordar quebrado. Os olhos que se abriam, devagar, para nada ver. A espera. A falta de expectativa. Sempre aquelas dores. Tinha agora uma enorme consciência do corpo. Nunca se esquecia da mão, da perna, da barriga, das costas, da coxa, do pescoço, dos ombros. Estavam sempre lá. Estendia-os, num movimento lento, exaurido. E esperava, no escuro, na densidão do ar, no silêncio.
Até ao clique. Ao rodar das chaves. E, como no dia anterior, e como decerto no dia seguinte - haveria um dia seguinte? - mais uma vez, a voz, as mãos que o levantavam, o puxavam, o obrigavam a encarar a vida. Em gestos rápidos - tão obscenamente rápidos - iluminavam o quarto, deixavam entrar o ar, lavavam-no, vestiam-no, tiravam-no da cama, colocavam-no numa cadeira, junto à janela. «Olhe, anime-se! Já viu o dia tão bonito que está lá fora? Podia dar um passeio hoje. Fazia-lhe bem andar. Apanhar ar. Um bocadinho de sol», dizia a voz. Aquela estúpida voz. Cheia de inflexões - alegres?, felizes?, expectantes?, - que o atingiam mais que qualquer uma das suas dores, do que qualquer um dos seus espasmos.
Nunca lhe respondia. Sabia que podia, que era fisicamente capaz de o fazer. Mas recusava a ideia de compactuar com aquela voz. Da cumplicidade que arriscava criar. E deixava a voz falar, continuar a lenga-lenga, naquele timbre agudo - animado, era isso, animado - carregada de um optimismo hipócrita. Idiota.
O café com leite, a carcaça com manteiga. A janela. A sopa guardada, a fruta. A voz saía. Ele ficava. Todo o dia, a olhar a janela. E pela janela a estrada, o passeio, as pessoas, os carros, os cães, as árvores, o céu, o sol, as flores, as nuvens, a chuva, o calor, o frio, as estações. Era a vida, então. A vida que era a dos outros. A vida lá fora e ele de fora da vida, naquele corpo gasto e acabado. Obstinado. Irredutível. Cruel. Pois que insistia, desumanamente, em continuar a funcionar.

Um comentário:

Rafael Stuart disse...

hmmmm
bem apanhado R.
(queria ser mais especifica mas não consigo debruçar me sobre temas serios com seriedade, ultimamente. o Humor é uma defesa contra a indiferença)
life is a bitch and then u die. mas suponho que é tudo uma questão de ponto de vista. Eu cá qnd chegarem os finalmentes acuso uma dose cavalar de valdispert pra ver se durmo de vez. mas logo se vê.
proximo desafio: és uma cega, o que é que ves???

beijoess